IMPACTOS DA PANDEMIA DO CORONAVÍRUS NA POPULAÇÃO LGBTQIA+ (PARTE 1)

Entenda como a pandemia da Covid-19 e as ações para impedir seu avanço – como o isolamento social e mudanças no sistema de saúde – estão afetando pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e queer. 

A seguir, traço um panorama dos impactos do coronavírus na população LGBTQIA+ em diferentes países e também no Brasil. Confira agora no Stefs em Blog.

Este texto é sobre os reflexos da Covid-19 na população LGBTQIA+

Mas lembre-se de que:

  • Pessoas negras (sobretudo homens jovens) correm o risco de ao usarem máscara  sofrerem maior repressão policial: leia sobre isso aqui e aqui
  • Número de mulheres que sofrem violência doméstica aumentou durante a pandemia: saiba mais aqui e aqui.

Os principais impactos da pandemia do coronavírus para LGBTQIA+

A seguir, listei as principais matérias sobre impactos do coronavírus na população LGBTQIA+. Ainda que boa parte das notícias sejam de outros países, é importante lembrar que situações similares estão ocorrendo ou podem acontecer no Brasil, mas pouco se tem noticiado sobre o assunto. Um segundo texto, com os reflexos da pandemia aos LGBTQIA+ no Brasil será publicado em breve. Continue acompanhando aqui no Stefs em Blog

Lista das principais notícias sobre os impactos da quarentena do coronavírus na comunidade LGBTQIA+:

  • Jovem gay se vê obrigado a ficar em quarentena com seus pais homofóbicos: “Vi a carreira que amo desaparecer da noite para o dia e agora estou preso em isolamento com homofóbicos. Minha mãe diz que a homossexualidade é uma doença do mal e que o diabo está me tornando gay. Ela reza em voz alta todos os dias para que eu seja libertado do pecado e encontre uma esposa. Eu realmente não tenho outro lugar para ir durante esse período de loucura, então estou apenas suportando o abuso”, relatou o dançarino Sam em matéria da BBC do Reino Unido (em inglês). 
  • Casal gay recebe aviso pra deixar apartamento porque, segundo carta, “são mais propensos ao coronavírus” (original em francês aqui): a carta, com conteúdo homofóbico e sem nenhum embasamento científico, foi escrita à mão mas deixada de forma anônima no pára-brisa do carro de David – gay, casado e cuidador de idosos. O papel ainda trazia a ameaça: “Este é o primeiro aviso.” O caso ocorreu em Marselha, cidade francesa.
  • Sem trabalho, profissionais do sexo trans passam a mendigar para sobreviver: com relatos emocionantes, a matéria entrevistou mulheres trans que trabalham com sexo em São Paulo (SP). Uma delas, Ágata Marçal, diz que “Está sendo a pior fase para ganhar dinheiro. Não imaginava que o coronavírus iria agredir tanto o trabalho da gente”. 
    • Travestis e trans em quarentena: despejos e emergências habitacionais na Argentina (em espanhol): “A primeira semana de isolamento preventivo obrigatório na Argentina revelou, entre outras coisas, a emergência habitacional e as precárias condições de vida da população travesti e trans. A maioria delas se dedica ao trabalho sexual e, com base nesses novos regulamentos devido à pandemia de coronavírus, elas não foram capazes de gerar recursos para a subsistência. Isso resultou em muitos casos em não poder pagar pelo aluguel e ser ameaçada de despejo ou, como aconteceu em Córdoba, ser jogada na rua em quarentena pela pandemia.” (tradução livre)  
  • Linhas de apoio mental LGBT+ registram aumento de ligações: como mostra a matéria do site Põe na Roda, as linhas de apoio LGBTQIA+ do Reino Unido passaram a adotar o trabalho remoto, mas estão registrando níveis de chamadas muito mais altos, à medida em que as pessoas lidam com a saúde mental durante a pandemia do coronavírus. A LGBT Foundation diz que as ligações dobraram em relação ao mesmo período de 2019. Segundo o site, Paul Martin OBE, executivo-chefe da organização, diz: “Estamos vendo alguns jovens adolescentes LGBT presos em suas casas com pais abusivos, sem ter opções de refúgio para dar uma trégua, as pessoas trans não conseguem mais viver com o gênero que se identificam devido às pressões familiares, e pessoas homossexuais isoladas com seus pais ou parceiros abusivos.”
  • Cartilha do governo federal voltada para a população LGBT+: o Ministério da Mulher, Família e dos Direitos Humanos lançou uma cartilha com informações sobre a prevenção da Covid-19 direcionada à população LGBTQIA+. Na verdade, a cartilha tem pouquíssimas informações específicas às pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e queer. Inclusive, ela traz informações que são associadas a LGBTQIA+ de forma preconceituosa, como drogas e HIV – o que na verdade deveria ser dito a toda a população. 
  • Pessoas trans têm cirurgias e assistência médica canceladas durante o coronavírus (original em inglês aqui): em diferentes países como EUA, Espanha, Tailândia, Reino Unido e também no Brasil, as cirurgias de pessoas trans estão sendo canceladas devido às restrições nos hospitais públicos e, por enquanto, seguem sem previsão de quando serão realizadas. Consideradas “não essenciais” pela maioria dos profissionais de saúde, para pessoas trans, essas cirurgias podem melhorar sua qualidade de vida ao reduzir a não identificação com o gênero biológico. A reportagem da Vice reforça ainda, por meio da fala de diferentes entrevistas a médicos e a pessoas trans, que todes entendem que a ação foi realmente necessária, porém destaca também que remarcações e atrasos em tais cirurgias costumam ocorrer com frequência e sem muitas justificativas. 
    • Vale lembrar que no Brasil o tempo de espera por uma cirurgia dessas pode levar anos, o que tende a aumentar ainda mais com a pandemia da Covid-19.
  • Paradas LGBTs são canceladas pelo mundo: devido à pandemia, paradas LGBTs foram canceladas ou adiadas em diferentes países. Reino Unido, Canadá e Austrália cancelaram seus eventos. Já as paradas de São Paulo, Los Angeles Pride e Miami Beach Pride – nos Estados Unidos, foram adiadas. Isso afeta tanto a comunidade LGBTQIA+, que tem nesses eventos um momento de união e luta pelos seus direitos, como a economia e o turismo das cidades (mais dados sobre o assunto aqui).  
  • Na Argentina, vítimas podem deixar quarentena para denunciar abusos: “Em resolução emitida no domingo (5), o governo da Argentina permitiu que mulheres e LGBT+ possam deixar residência para prestar queixas ou pedir ajuda após sofrerem violência.” 
  • Panamá e Peru proíbem homens e mulheres de saírem de casa no mesmo dia durante quarentena (em espanhol): tais medidas deixam pessoas trans no limbo legal, uma vez que a sociedade acredita que elas não se enquadram nas categorias tradicionais de homem e mulher. Exemplo disso é o caso de uma mulher trans no Panamá multada por sair de casa em um dia reservado para as mulheres (mais informações sobre o caso aqui – em português). 
    • Nota 1: no Panamá, as pessoas trans só podem legalmente mudar sua identidade de gênero quando submetidas à cirurgia de redesignação sexual.
    • Nota 2: no Peru, a situação é (um pouco) mais positiva, como mostra esta reportagem do G1, uma vez que o presidente fez uma declaração para que os homossexuais e as pessoas trans sejam respeitadas neste decreto. 
  • Governo da Hungria utiliza poderes emergenciais para eliminar direitos trans: segundo matéria, a Hungria publicou um projeto de lei que torna impossível as pessoas trans mudarem de gênero legalmente. Isso aconteceu apenas um dia depois que o parlamento da Hungria havia votado em uma medida emergencial que possibilita plenos poderes ao presidente do país, como forma de combater a pandemia do coronavírus. Ainda segundo o site Põe na Roda, o projeto de lei diz: “Dado que mudar completamente o gênero biológico de uma pessoa é impossível, é necessário estabelecer na lei que ele também não pode ser alterada no registro civil.”
    • Governador republicano assina as duas leis mais transfóbicas da história dos EUA: o governador de Idaho, Brad Little, fez proibição similar à que o ocorreu na Hungria. E foi além: proibiu escolas e faculdades de permitirem que meninas trans participem de esportes femininos.
    • Ação quer impedir governo Trump de tirar proteções aos direitos LGBT+ (original em inglês aqui): conforme diz a reportagem, uma ação judicial afirma que o governo Trump tem planos ilegais de diminuir as proteções da população LGBTQIA+, com ameaças ao acesso a serviços fundamentais. “Se for aprovada, alertam os advogados, vai permitir que organizações financiadas pelo governo federal demitam funcionários sob alegação de conflitos com crenças religiosas, além de restringir serviços a população LGBTI+, como moradia e adoção, informa a NBC News.”
  • Diferentes grupos religiosos culpam os LGBTQIA+ pela pandemia: há várias matérias sobre o assunto e não irei linkar nenhuma aqui. A quem cogita tal coisa só lembro que alguns dos países mais afetados pela Covid-19 – como a China, Itália e Irã – não legalizaram o casamento entre pessoas da comunidade LGBTQIA+.

Antes de continuar, faço um agradecimento especial ao site Põe na Roda, que se consolida como o maior portal de notícias LGBTQIA+ do Brasil atualmente. 

O maior impacto da pandemia do coronavírus na população LGBTQIA+

Ao ler tais matérias, o que fica evidente no final das contas é que a Covid-19 e suas consequências aumentam as violências estruturais que a população lésbica, gay, bissexual, transgênero e queer já encara há muito tempo, mas que, devido à crise que essa pandemia traz, são intensificadas ainda mais. 

Problemas relacionados principalmente ao preconceito e a leis precárias que pouco protegem a esse grupo. Dessa forma, a pandemia do coronavírus e medidas necessárias para contê-la como o isolamento social, estão ampliando qualquer situação antes existente em que pessoas LGBTQIA+ já estivessem, sejam elas:

  • Risco de perderem os direitos conquistados;
  • Violências domésticas;
  • Transfobia, bifobia e homofobia;
  • Dificuldade de acesso e/ou continuação de tratamentos (relacionados à transição de gênero ou não);
  • Dificuldades de manutenção de suas rendas – em especial, como foi dito antes, as trans e travestis profissionais do sexo;
  • Solidão.

Em um próximo texto, irei abordar melhor cada um desses itens e mais diretamente os impactos do coronavírus na população LGBTQIA+ no Brasil. 

Se você tem algum relato ou sabe de alguma situação, fique à vontade para me enviar nos comentários (todos os comentários do blog com relatos serão mantidos em sigilo). 

Como você pode ajudar pessoas LGBTQIA+ vulneráveis à Covid-19

Por conta de todas essas questões levantadas, diferentes organizações do Brasil estão se mobilizando para dar alguma assistência às pessoas LGBTQIA+ neste período de pandemia. Confira abaixo algumas iniciativas:

  • Espírito Santo: a Associação GOLD (Grupo Orgulho, Liberdade e Dignidade) de Vitória está coletando doações de alimentos, materiais de higiene e/ou dinheiro para montar kits e distribuir a pessoas LGBTQIA+ capixabas. Informações no post do Instagram
  • São Paulo: a Coordenação de Políticas LGBTI lançou a campanha #DoeParaUmLGBTI. Saiba como ajudar no post do Instagram.
  • Rio de Janeiro: a Casa Ném está coletando doações para a população LGBQIA+ periférica fluminense. Ajude através de doações no site da Benfeitoria.
  • Belo Horizonte: o “Cuidar para proteger” é uma iniciativa que busca distribuir cestas básicas para mulheres trans e travestis trabalhadoras do sexo. Faça sua doação pelo site.
  • Brasil: a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), montou um mapa da solidariedade com iniciativas de todo o país voltadas para a população LGBTQIA+. Acesse o destaque “ApoioCovid” no Instagram da ANTRA.  

Se você é LGBTQIA+ e precisa de ajuda, acesse os links das organizações para saber como se cadastrar e receber apoio.   

Quem puder, ajude. Quem não puder, compartilhe com mais pessoas.  

Leia também outros textos que fiz sobre a pandemia do coronavírus e população LGBTQIA+:

2 comentários Adicione o seu

  1. Texto excelente e riquíssimo em informação. Ao mesmo tempo assustador e preocupante.
    Quero poder ajudar, grana não tenho, mas vou compartilhar seu texto; Sucesso, Sté.

    Beijos, Dryn.

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    1. Stefânia disse:

      Muito obrigade por ter lido e por ter divulgado, Dryn! 🥰🥰
      Infelizmente, é um texto com notícias bem tristes. 🥺
      Continuamos em luta. Vamos juntes! 💪😘
      Beijos

      Curtir

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